O HUMANISTA NO LIMIAR
Jacob Klintowitz
Talvez o percurso de uma vida humana não seja um enredo e ele não possa ser contado integralmente, pois o seu sentido principal permanece oculto. É possível que o enredo, com o seu encadeamento lógico e os seus múltiplos sentidos tão manifestos, seja uma invenção humana para suprir a dor da ausência de um claro desenho. Tantas vezes a existência humana parece ter um aspecto fragmentário, inconsistente, fantasmagórico – “a vida não passa de uma sombra que caminha” – mas o que dizer de um enredo que elege o seu narrador?
Sérgio Faraco intui, revela, descreve, nos apresenta a existência e a história de personagens, o percurso de pessoas entre pessoas, sombras entre sombras, e a paisagem, tão marcante, áspera, antiga, ancestral, desde sempre, acolhedora e igualmente indiferente à nós, a paisagem, também ela na sua rusticidade um personagem, e é nela que se passa o drama e a tragédia e ela permanece intacta, não exuberante, alta e imponente, mas arraigada, profunda, cheirosa, fértil, feita para a introspecção, para o seu povo de poucas falas.
A descrição seca e enumerativa que Sérgio Faraco faz gera um ritmo e uma paisagem interior, por impossível que seja a combinação paisagem e interior.
Também os seus contos em ambiente urbano têm a mesma atmosfera rarefeita e essencial, o despojamento até a simplicidade exaustiva, a enumeração dos objetos e de sua pobre memória, a evocação de distante afetividade, o confronto dos personagens com o seu destino, a permanente necessidade de autodefinição, a procura da identidade, o desejo de ultrapassar o determinismo herdado com a origem e a busca desesperada da aceitação pelo outro, o sonho da integração profunda. Permanentemente a busca de afastar a persona, destruir a máscara mesmo sem saber o que ela oculta ou o que ela entremostra. Os personagens levados ao limite, à beira do precipício, diante de si mesmo, do abismo ou da redenção.
Se considerarmos estes cenários e os seus personagens é possível dizer que Sérgio Faraco é um escritor que apresenta o ser humano e o seu limite, ou, talvez mais exato na imprecisão, o ser humano e o seu possível e inexato limite. Trata-se de um artista que habita a fronteira, ele também experenciando o seu próprio limite. É uma literatura que corteja o abismo, o limiar entre o ser e o não-ser, que pressente uma trilha numa selva escura, uma imensurável fronteira não geográfica feita de existência e que se constrói, desmancha e reestrutura a cada instante. Ele, como os seus personagens, sempre arrisca muito, não se exclui da dor, não se poupa de transitar entre limites, na incógnita terra entre o não ser e o vislumbre do ser e do vir a ser. É uma saga de estoicos. Provavelmente, nesse caso, a consciência se defina pelo encontro com a sua própria ânima, com o seu complexo psiquismo, com o âmago, o vislumbre da identidade, tão buscada e ansiada. A identidade desses personagens não se dá regional ou nacionalmente, por semelhança com grupos ou espaços, mas com o encontro consigo mesmo. A consciência e a contemplação de si mesmo. Ser, neste tropismo infindável, é ser único. Os personagens de Faraco, e o próprio Faraco, são da mesma estirpe de Édipo cego, o doloroso encontro consigo mesmo, ainda que tenham que abandonar o olhar sobre o mundo. Paradoxalmente, a paisagem é eternamente interior.
Às vezes, ao contemplarmos o escritor Sérgio Faraco e a saga à qual dedicou a sua vida, pensamos que se ele não existisse nós perderíamos o testemunho extraordinário de uma memória e invocação ancestral e o registro de personagens únicos; a vida como um acréscimo exemplar de um enredo invejável.
É claro, se ele não existisse não saberíamos dessa perda, mas se o percurso da humanidade, como penso, é também o percurso de sua narrativa, com a ausência de Sérgio Faraco, em algum lugar, num arquivo idealizado ou sonhado, sentiríamos a perda ou a ausência da narrativa épica, pois se trata disso, da existência simples e heroica dos seus personagens. Seríamos, mesmo sem consciência disso, mais pobres, e a nossa alma mais carente do mergulho no abismo humano.
O seu livro não ficcional, “Lágrimas na chuva”, de 2002, é uma narrativa memorialística notável, a história da morte e da ressurreição simbólica de um homem em condições de grande opressão. Disse-me a psicóloga junguiana Raissa Cavalcanti, minha mestra, que este livro é a história exemplar de um espírito indomável situando-a como a mítica Jornada do Herói. Deve ser essa a razão primeira da forte empatia que ele causa. Mas é, igualmente, no contexto dessa consideração, uma declaração do autor a nos dizer que a memória e a conservação da memória é uma razão suficiente para viver e sobreviver.
No prefácio, Faraco nos diz: “Dos anos setenta aos noventa não pude voltar àquele passado, era a época da minha ficção, mas ele continuava a palpitar, fazendo-se lembrar a cada instante como um outro corpo dentro do meu corpo. Tinha eu o direito de mata-lo? Ou de permitir que morresse com a minha morte?”.
E Faraco acentua a questão da memória e da vida ao recordar a origem do título de seu livro. “No filme de Ridley Scott, “Blade Runner”, o andróide Roy Batty, na agonia da morte, evoca a sua atuação em remotas paragens do Universo: “Eu vi coisas que vocês nunca acreditariam. Naves de ataque em chamas perto da borda de Orion. Vi a luz do farol cintilar no escuro na Comporta Tannhäuser. Todos esses momentos se perderão no tempo como lágrimas na chuva”.
Este filme se apoia no romance do escritor americano Philip K. Dick, “Androides sonham com ovelhas elétricas?”, cuja não convencional motivação é narrar as suas memórias de um tempo futuro. E nos transmitir, da mesma forma, a certeza de que a realidade é incerta, não distinguir o que é do que não é, do que somos e do que imaginamos ser. São de Dick esses personagens que se movimentam na fimbria e que apalpam à sua volta em busca da sensação do real e que não sabem, na verdade, de que natureza são feitos. É de Philip Dick o conceito fundamental que gera o filme, a definição de que o que nos diferencia de um androide de última geração é o fato de o horror de certas situações se evidenciar no olhar humano. O androide não se horroriza. Entretanto cresce com a vivência, é um ser no tempo. É o que lhe permite lamentar que com ele morra a memória de uma vida, a memória de uma civilização. É um conceito ancestral, um homem é todos os homens.
O mundo pode ser uma ilusão e o homem ser o sonho de alguém; alguém nos sonha. Ou alguém nos pensa. Entretanto, Roy Batty viu as naves em chamas na borda de Orion. E Faraco viveu a experiência do esquecimento e do retorno e isso, enquanto não fosse transformado em linguagem, seria sempre um corpo dentro do corpo, uma existência que se escondia na existência. A literatura de Sérgio Faraco nasce da dor de recordar, recordar é saber com o coração e na literatura se transforma num corpo de vida própria.
A principal afirmação da ciência e da arte nos séculos XIX e XX é de que um homem é todos os homens. É esse conceito a essência da genética contemporânea, da antropologia, do estudo de civilizações diversas, pregressas ou coevas, da psicologia, das formas artísticas, da arte como recuperação e revitalização de todas as formas reveladas pela história. E a construção da individuação, o que diferenciará um homem de outro homem, sempre conservando o modelo ancestral, se faz a partir dessa herança comum. O negacionismo dessa conquista civilizatória também faz parte da nossa época na qual convivem forças diversas.
Sérgio Faraco escolheu bem o título de seu livro de memórias e no qual ele nos ensina como a memória o constitui. Com esse livro, em boa parte documento de uma experiência, ele nos explicita a razão de sua ficção. Aliás, mesmo que busque a veracidade dos fatos, a narração da veracidade é ficcional. Sobre a memória do androide, por definição uma criatura, não importa o quanto Faraco conheça de Philip Dick ou do seu poeta-intérprete Ridley Scott, às vezes os artistas ouvem a mesma música inaudível.
A simplicidade e a transparência da narrativa de Sérgio Faraco são dois elementos do mistério, pois a clareza da narrativa nos evita o equívoco da linguagem nebulosa. Aqui nada é escondido, já que não se trata de turvar as águas, ao contrário, trata-se de deixar evidente que a própria estrutura é irredutível à decifração final, pois não existe uma verdade absoluta para transmitir, mas uma enunciação de momentos evidenciados e iluminados. Há que se encontrar os caminhos que jamais eliminam as permanentes indagações.
Como desistimos, por impossível, de uma verdade absoluta e de uma descrição de certezas, obviamente não acreditamos que a literatura de Sérgio Faraco reforce eventual mito do gaúcho. Por esse escritor não receberemos essa certeza e não teremos a montagem de um herói sem jaça. Ao contrário, nesse caso recebemos o ser humano como um ser complexo, em processo, assombrado com o seu próprio abismo, irresoluto e resoluto diante dos desafios cotidianos e que, à semelhança de todo ser humano, seguidamente rompe com o núcleo de origem pois esta é a única maneira de ganhar o mundo. Ao perder, ganha.
O escritor ao romper com um universo sem contradições, fantasiosamente organizado, superficial ao se apresentar com uma única face, retêm a capacidade da complexidade. O próprio Jorge Luís Borges, sempre fascinado pelo mito da bravura e do guerreiro, ele um homem destinado desde o nascimento à cegueira, impossibilitado da bravura física e da batalha campal, procurou, sem conseguir, tornar a mitologia do guerreiro da grande planície, o pampa, semelhante à dos heróis da Odisseia. Mas, ao final, no conto “Sul”, reconhece o dilema da idealização quando o personagem que mitifica o mundo áspero e o herói forjado na natureza é assassinado numa viagem feita de delírio. Diz Borges, numa entrevista, que o que amamos nos mata e cita como exemplo o seu conto “Sul”. Esquece de complementar que amar uma fantasia da mente é uma espécie de narcisismo… sempre a água nos afoga.
Faraco sonha a grandeza. Na condição humana ele vê o épico. No simples, o heroico. No gesto, a dignidade. O quintal é a descrição do mundo. As amizades varonis tem a mesma dimensão das encontradas em narrações clássicas. Mas é este mesmo narrador da amizade paradigmática, o grande retratista das personagens femininas. Poderia parecer uma ficção de homens, valentia, lealdade, fidelidade ao clã, oralidade da tradição, apego ao passado. Valores pétreos. Entretanto Sérgio Faraco é o criador de alguns dos mais comoventes personagens femininos da nossa história.
É bom anotar que Sérgio Faraco não defende nenhuma tese. Ele não quer revisar o mito do guerreiro gaúcho, não tem a nostalgia do imaginário homem histórico, não descreve a luta de minorias por sua afirmação, e nem mesmo a história recente da emancipação feminina. Os seus personagens são críveis, nós acreditamos na sua existência. A primeira razão dessa credibilidade vem do despojamento e do fato de Faraco não desejar provar nada. A sua obra não é um discurso de convencimento, ele não deseja nos converter. A voz de Faraco é individual, é a arte para quem gosta de arte e não da história da arte.
O que fica na sensibilidade, o que comove o leitor, não é o diálogo nem a descrição da paisagem, ainda que elementos poderosos, o que fica é o não dito, o desejo do personagem não expresso, mas presente , o encontro com o destino, que se passa como uma aceitação natural, como um dado da ordem das coisas, como uma acontecimento que vem com a vida e se vai com a vida, e se encerra quando a vida se esvai. Faraco é o mestre do não dito.
Selecionar alguns poucos contos de Faraco é deixar outros de fora e isso é sempre inquietante e injusto. Mas examinar, mesmo rápida e insuficientemente, um conto seu é igualmente um presente ao leitor, pois permite que ele questione e oponha o seu próprio entendimento. Penso que termina bem um ensaio quando voltamos à obra do autor. Saímos dela, voltamos a ela e isso nos remete à uma comovedora imagem, a do Oroboros, a serpente que morde o próprio rabo, símbolo circular da criação.
O voo da garça-pequena
Maria Rita, essa inesquecível mulher, recém prostituta, separada do marido porque ciumento e possessivo a surrava. Pequena e perfeita, como um biscuit, uma requintada obra de arte. Um desenho favorecido por Deus (há menção disso no conto). Ela quer estar em conexão com o mundo. O seu sonho é um rádio que pegue estações de cidades, a maior delas Porto Alegre. Deslumbra-se porque numa cidade próxima, há uma mulher doutora.
López é contrabandista na fronteira. É o Hermes, mensageiro dos Deuses. O homem entre dois mundos. Exu, mensageiro de Oxalá. É ele que pode trazer o rádio. López é o senhor das duas margens do rio. É ele que alimenta os desejos. López satisfaz as ambições, sejam elas divertimento, sejam alimento para a alma.
Quando Maria Rita coloca o seu desejo de ampliar os limites, se conectar com o mundo, saber o que está longe do seu cotidiano, mas próximo da sua alma, López reduz tudo à um estar no finito. “O mundo é o que eu vejo.” Ela, ao contrário, faz com que o ato de se “aliviar”, o sexo sem relação afetiva, se evidencie como inumano. O mundo é o que sinto.
López sente o sentimento de Maria Rita e diz, “também não é assim”. Antes, se “aliviar” era um direito seu. Maria Rita, Afrodite, é invencível em seu desejo de individualidade.
López faz ligação entre mundos. Maria Rita invoca a ligação entre seres.
“… A garça-pequena com o seu véu de noiva, suas plumas alvíssimas, e voava longe, para o alto, e era o voo mais tristonho e mais bonito. López talvez o tenha visto. Ou, talvez, não.”.
Dois guaxos
É um conto extraordinário. O primeiro dos temas, o do incesto entre os irmãos, é só o mais evidente, pois o que se agiganta é a existência sem qualquer perspectiva, desprovida de informação e formação e o fantástico monólogo interior do Maninho, sempre acalentando a morte, sempre perto da solução extrema do conflito, o assassinato. Entretanto é presente a ideia do desastre inevitável, não fosse o bugre, seria um bombachudo a seduzir a Ana.
A opção final de sair para o mundo aberto, o rompimento do círculo familiar para uma espiral ascensional, é a criação de um novo tempo e novo espaço, para o personagem. O universo sombrio e implacável é asfixiante e o único valor moral está no passado, a mãe morta. Ela talvez fosse uma fresta de luz num grupo absolutamente vinculado ao mais elementar da natureza. E nem isso, na verdade, pois o pai, alcoólatra e decadente, não deseja proteger a filha do predador errante.
Tudo se passa num roteiro de vida e determinismo. Nos dói saber do futuro de Ana. É nesse tempo vindouro que ela dá o segundo passo. O primeiro foi substituir a mãe como a tessitura que mantém unida da família. Tarefa impossível, já se sabe. Ela não tem parceiro. Também o incesto, movimento regressivo e destruidor, trama central desse universo concentracionista, é narrado com maestria.
A história é de uma violência inaudita e, pela brilhante qualidade ficcional, é de uma delicadeza comovente.
O céu não é tão longe
Não é só de maravilhas que é feito o céu, mas da ausência de tempo, da consciência de que nada pode ser modificado, de que o que existe é eterno e para sempre, simultâneo diante de nosso olhar: todos os fatos e pensamentos existem no mesmo momento. Como seria possível entender o céu de outra forma? a morada de Deus não é outra coisa senão o próprio Deus. E o conto “O Céu não é tão longe”, entre tantas sugestões, nos envolve em nós mesmos, pois desperta as mais repousadas convicções. A densidade do conto acorda o que está escondido em camadas amortecedoras de cotidiano.
O conto se passa no universo rural gaúcho e trata de duas questões fundamentais. A primeira, é a consciência de si mesmo. O reconhecimento da individualidade. A segunda questão é o encontro com a Esfinge, o momento em que o homem se depara com o enigma e a responsabilidade de seu destino. Certamente estas duas questões não são dissociadas entre si e nem o conto, como obra de arte, fecha-se neste núcleo, mas oferece outra gama de possibilidades.
O personagem principal, aquele cujo percurso faz desenrolar-se a trama, Isidoro, é senhor de seus atos enquanto segue a rotina composta de trabalho, vida social, comportamento padrão. Mas este domínio de seus atos é, igualmente, ser dominado pela repetição de ações e modos. Ele é, neste sentido, um homem integrado ao padrão, e um padrão agregado ao seu proceder. Em um único momento ele percebe a sua realidade social e a sua revelada individualidade, justamente no ato sexual com a filha de um fazendeiro. Neste momento ele se sente único pelo desejo de que é alvo. A individualidade do outro personagem, a moça que tem desejos e comportamento próprios, e o confronta, torna-o único. O que era vago anseio, o amor impossível, o encontro previamente descartado pela organização social e psíquica, torna-se possível. A moça o conduz: o céu não é tão distante. É quase impossível não relacionar esta relação com o mito do Minotauro, quando Perseu é conduzido pelo fio de Ariadne. Também aqui, o enfrentamento com o monstro é conduzido pela intuição feminina. Isidoro percebe o seu desejo, torna-se objeto do desejo do outro, e nesta relação ele, pela primeira vez, percebe quem é e o que não foi até então. Nos olhos do outro ele encontra a si mesmo.
A individualidade reconhecida é romper com um tabu. Neste sentido, ao se reconhecer, ele infringe a organização social. O enigma é exatamente este, a medida do entendimento do mundo dos homens. E esta consciência é tão clara para o personagem que ele se recusa a fugir. Ao infringir o tabu o seu destino se escreveu. Em duas ocasiões isto é consignado pelo autor. A primeira, quando a Joaninha, responsável pelo atendimento no bolicho, lhe diz enfaticamente para fugir e ele responde, “Mas o que é isso, moça?”. A segunda ocasião é quando se recusa a mudar a rota e retornar, pois, apenas adiaria o encontro fatídico com os seus assassinos. Isidoro caminha para a morte e aceita a morte, pois não vê opção. Mesmo que na aventura ele tivesse matado os oponentes, isto de nada lhe valeria, pois o seu algoz estava distante e ele era Todo Mundo.
A sutileza do conto se revela, ainda mais, ao fazer coincidir o nascimento (consciência individual) e a morte. A moça é afastada do local pela família, sai de foco. E Isidoro penetra mais fundamente no contexto social. Uma vez tornado único, ele mergulha no mundo. Talvez o seu nome, que parece a junção de Isis e Dor seja revelador, na combinação da sabedoria da Mãe Divina e do sofrimento humano. É uma repetição em todas as civilizações, a doação da vida (Mãe) e a dor (Mundo). Sendo verdadeira ou não esta aproximação, o que importa é que o nascimento e a dor do personagem descrevem o seu caminho.
A saga do personagem estava assinalada pelos olhares, advertências – “Fuja, fuja!”; “…vi três pilungos maneados”; “…até parei para olhar (os cavaleiros). Não se mostraram.” – e pela comparação com a imutabilidade da natureza, o comportamento das formigas, o barulho dos animais na mata fechada. O autor aproxima estas estruturas sedimentadas, a da natureza e a dos homens. Esta estrutura abriga regras determinadas para o seu funcionamento, funções e proibições.
A essencialidade da narração é exemplar. Sérgio Faraco já nos habituou a isto em sua saga pessoal na qual criou uma literatura única. Mas poucas vezes, como neste caso, ela se tornou tão inteiramente o próprio personagem. Não há distância, não há diferença, entre a mestria da narração e a história e seus personagens. A linguagem do artista é o corpo presente, é a tessitura onde se desenrola a aventura e é, pelo seu caráter integrado, o principal personagem deste conto. A narração é a tessitura e a aventura.
Devemos destacar o silêncio onipresente neste conto. Não apenas por falas curtas, mas principalmente por existir entre elas uma área de significados não ditos, situações, personagens, ritos sociais, indiciados por gestos, olhares, paisagem, rotas. Na literatura de Sérgio Faraco o não-dito, sugerido, entremostrado, constituem uma cartografia onde se desenha o verdadeiro símbolo. Entre uma fala e outra, o silêncio cria um espaço de sonho e intuições. Poucos escritores contemporâneos terão esta característica e qualidade. Muitas vezes, procura-se na poesia o silêncio, mas a época é excessivamente estridente. Devemos agradecer ao escritor por nos presentear com o amado vazio, fonte inconteste de toda grande arte.
Morrer, sentir “o cheiro alado…da orla do mato e o sabor agridoce da pitanga…” e saber que “não era tão longe o céu.” Este conto que trata das questões mais graves do ser humano, o destino, o tabu, a consciência individual, o nascimento e a morte, não poderia terminar de outra maneira, “Não era tão longe o céu”, agora revestido de um sentido mais amplo, pois se refere à assunção do coletivo ao individual e ao nascimento (céu divino) que se abre paradoxalmente com a morte.
Outro brinde para Alice
Este conto do Faraco, Outro brinde para Alice, é dificílimo de conceber e escrever. As ações em torno da doença e morte da criança descrevem uma existência social, humana, regional. É um retrato instantâneo, um registro direto, sem qualificações conceituais, sem pretensões: a descrição das ações diz tudo. O leitor fará o entendimento segundo a sua bagagem pessoal. O confronto com a morte é extraordinário. A “indesejada dos homens “ é mais cruel por fugir da tradição, primeiro morrem os mais velhos. A lógica cronológica, experiência humana, é rompida por não corresponder à verdade factual. A lógica cronológica é um fundamento ao qual os humanos se apegam. A vivência desmente essa norma. Não há lógica. Estamos desprotegidos.
O alcance de Sérgio Faraco é extraordinário se notarmos que a estrutura do conto é feita apenas de intuições. O planejamento, se é que podemos dizer assim, é o roteiro de pequenos gestos. Deste mirante este conto é de uma visualidade extraordinária. O escritor contempla a humanidade e nos diz o seu movimento. É espantoso que sem uma única frase épica, sem nenhum gesto trágico, ele tenha este alcance mítico. O confronto com a morte nos comove como só a tragédia pode comover. A criança Alice somos todos nós. Os pais de Alice somos todos nós. A dimensão do conto é a da tragédia, não do drama. Como é possível, usando a visualidade cotidiana, alcançar o mito? A arte não nos explica, apenas nos transporta. E nos deixa evidente que o autor precisa se despir de toda vaidade egoica para ser instrumento da narração. O olhar do artista tem de ser neutro, o texto tem de ser despretensioso. Qualquer ênfase equivocada impediria o fluxo. A grandeza da vivência do confronto com a morte consiste na constatação de que não dominamos o destino. A grandeza humana consiste em ser capaz de narrar.
